quinta-feira, 14 de maio de 2020

A pior pessoa do mundo

Sim, sou eu
Chega de delegar ao outro minhas mazelas
Enquanto eu não rasgar a garganta contra tudo que oprime, serei a mais calada
Enquanto aceitar esse lugar, enquanto isso...enquanto só escrevo e não faço
só omissão e anestesia
Enquanto eu vender meu corpo como patrimônio social
não terei meu corpo
enquanto isso, sonego impostos ao desejo de me ser
Toda vez que aceito a obrigação
sou obrigada, falo obrigada, preciso estar abrigada no meu lugar
Lugar de escolha
Sim, sou eu
que escreve intensamente com as vísceras....
Sim é você que me arranca os membros, dedos, cotovelos....
Enquanto isso escuto a melhor música, meu corpo dança, meu gozo lança sua impotência
Me arrancando de mim, te sobra apenas a imaginação
A realidade ?! A experiência?!
 Peça por favor, peça licença
Viver não é solitário
Tem alguém alí
Uma esfinge, uma charada, um devir

Restos de sobras de dejetos


dedicatórias....
ao meu irmão do meio o grito em iii de um heavy que não entendi
mas amei
ao mais velho um argumento sobre o depois e  o antes, ética e direitos...sobre a existência
Sobre mim pétalas e lama e lamento
lama não, porque o solo está seco
perguntas são necessárias? Sobre a qualidade de minhas palavras, obras, corpo, beleza, estrada
Ignorem
Sou uma daquelas iguais aquelas outras que imitaram outras delas sou como elas
sou querela
sou quimera
sou Aurora
sou Amélia
Sou Angélica
Sou ..... não fiquei prestando testimunho
não atesto nada.....
Tá...estive na estrada, vi coisas, até denunciei, briguei por causas....
Mas não boto banca ....ancas largas...firme no chão
Isso, mulher legião
Quase um tumulto, uma multidão
Parecida com todo mundo
Igual a nada
Não compro um jogo pronto, reescrevo, caio em ciladas, sou sensível
E qual é o problema? Ter trema ao invés de acento agudo
Você geme, eu uivo
Nos entendemos bem... pode ser que eu seja mais inteligente, saiba coisas demais em tempo mais curto
Isso não diminui um circuito que vai de um pólo ao outro
O que ofereço não é um biscoito, de recompensa...
Ofereço trégua....pode ser que sejamos mais parecidos do que pregaram
Pode ser que nos roubaram alguma feminilidade e passamos a competir num campo sem vencedores
Talvez sejam todos atores, se for isso, fim de cena, happy end, sim, estou cansada
Me rendo....na verdade, teço a renda...
Olé mulher rendeira.... 

terça-feira, 12 de maio de 2020

Máscaras sem baile

Ainda sou poetiza?
Ainda sou qualquer coisa que viva?
Saí nas ruas, maio de 2020, a multidão mascarada cercava meus medos
São vazios que coleciono sem álbum
Estou trancada e eles livres
Estou guardada e eles vivem?
Onde estão? Em 2020? O mesmo tempo que mortificou meus projetos mais sensíveis
Meus planos de maior identidade....tirou-me o nome
O que me consome é dúvida
Estamos aí ou aqui nas mesmas ruas? É um mundo paralelo?
Sento e espero, alguém me chamar para um baile, sempre tem um quando o prazo termina
Quando chega uma data especial, um ritual de passagem
Para onde passei? Quem passa por aí?
Procuro a liberdade em teclas, fotos...os fatos me aprisionam à realidade
Só eu estou vivendo isso de verdade?
Acho que enlouqueci
Foi tarde
Já não entendia nada, há tempos
Ainda sou poetiza....
Mas agora, minha rima briga....não disfarça.