domingo, 21 de setembro de 2014

Domingo

Rede na varanda
Barulhos dispersos
Balança o humor entre deprimido e esperançoso
As crianças brincam
tudo sem intensidade
Os desejo calados de sábado
a certeza da semana que começa
Nenhuma pressa
Dormingo
Almoço especial
Silêncio sob chuva
barulho dos dentes estilhaçando uvas
Tudo se ouve por dentro
tal a quietude
Esperança que renasce ou tédio que finge descanso
Parques lotados
Rostos mansos
ressaquiados
Até o ódio aguarda o dia mais agitado
para manifestar-se
Domingo é música que não se dança
Ou Samba que disfarça o dia
Leitura embaixo de cobertas
Abraço para quem tem frio
Solidão para quem tem saudade
Encontro para os queridos, com palavras francas ou pelas metades
Sorrisos largos e repetidos
O primeiro dia, Sagrado
Onde tudo seria o vislumbre de uma nova realidade.
E se repete a vida até o próximo Sábado...
Nem doce, nem amargo, domingo adormece o passado.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

E agora Café?

E agora Café?
O sono acabou,
A água faltou
todo mundo dormiu
o barulho cessou
pés frios no chão
e a vida de pernas pro ar
E agora Café?
A memória falhou
O coração desacelerou
A angústia voltou
O sol esfriou
seu borro na chávena não sei decifrar....
E agora Café?
Como fica a noite virada,
O dia de amanhã sem cara de cansada
Café, isso não é piada...
Você me tira e não devolve

É café, não és boa companhia
Você me anima, agita, abre meu apetite depois esfria....
Me vicia, me inerva, e se faz ausente quando já não tenho mais ao que recorrer

Café, você é Amargo!!!
Abestada
Te procuro onde não há nada
encontro palavras...
o silêncio é que me conta
Que em cada conta paga
Cada conta de teu terço me encontra
Quando se der por conta
Lá estou encontrada
Procurando por nada
Totalmente abestada.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

A visceralidade

Pediram-me para ser leve
Por isso tomei a pena
Mas minha mão pesada
Forçou-a contra o papel
deixou borrões, projeções de meus conteúdos que latem
Furou os pontos, rasgou vírgulas, tatuou palavras, sangrou rimas
até ficarem caladas as vísceras
Para quem não entende de sublimação
Foi apenas minha agressividade, descontrole, invasão, ebriedade
Para quem entende de vida, foi a minha pulsação
Desejo, intensidade, emoção, fui eu em verdade...
A leveza prometida habitou minha face
No poema a ferida
Aqui dentro a sanidade.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dirce, quem te disse?

Dirce me disse para deixar as portas trancadas
porque ali onde a gente morava não poderia ninguém mais entrar
Ela falava como se da sua boca saíssem lágrimas
Estava cansada...queria sonhar
Disse que as pessoas não mediam esforços para destruir os lares
que os inconsequentes estavam soltos, a vontade
que a verdade permanecia encarcerada
e que ninguém se percebia inteiro
as metades sufocantes andavam pelas casas solicitando pedaços
despedaçavam os completos, os repletos, os amados, os laços
Dirce não queria que eu fosse embora
Mas eu disse a ela que não tinha medo de encarar os fatos
E o fato é que me disseram que alguém outro disse que Dirce estava infeliz
e eu precisava dar o primeiro passo
descalço saí pelo asfalto
imundo e exausto, deitei-me num banco de praça, foi quando achei graça
crianças brincavam como se o mundo não fosse se acabar
Violetas plantadas por idosos esperançavam um futuro para qualquer um
Pensei em contar para Dirce mas ela só enxergava o monótono desatino de repetir
Acha-se segura assim, aguardando a morte
Só conversava consigo, com entidades, com energias, com espíritos
Mas o diálogo com os vivos era des-animado
a sua descrença no agora não condizia com sua crença na posteridade
Habitar as ruas foi o melhor destino para alguém encarcerado
Ouvi dizer que Dirce anda dizendo que agora que parti ela voltou a sorrir, está até mesmo gostando da humanidade
Fiz-lhe um bem, então...de não alimentar seu desejo algoz de matar-me todas as vontades
O bem que me fiz meus olhos contam...
Um bem de liberdade!