Dirce me disse para deixar as portas trancadas
porque ali onde a gente morava não poderia ninguém mais entrar
Ela falava como se da sua boca saíssem lágrimas
Estava cansada...queria sonhar
Disse que as pessoas não mediam esforços para destruir os lares
que os inconsequentes estavam soltos, a vontade
que a verdade permanecia encarcerada
e que ninguém se percebia inteiro
as metades sufocantes andavam pelas casas solicitando pedaços
despedaçavam os completos, os repletos, os amados, os laços
Dirce não queria que eu fosse embora
Mas eu disse a ela que não tinha medo de encarar os fatos
E o fato é que me disseram que alguém outro disse que Dirce estava infeliz
e eu precisava dar o primeiro passo
descalço saí pelo asfalto
imundo e exausto, deitei-me num banco de praça, foi quando achei graça
crianças brincavam como se o mundo não fosse se acabar
Violetas plantadas por idosos esperançavam um futuro para qualquer um
Pensei em contar para Dirce mas ela só enxergava o monótono desatino de repetir
Acha-se segura assim, aguardando a morte
Só conversava consigo, com entidades, com energias, com espíritos
Mas o diálogo com os vivos era des-animado
a sua descrença no agora não condizia com sua crença na posteridade
Habitar as ruas foi o melhor destino para alguém encarcerado
Ouvi dizer que Dirce anda dizendo que agora que parti ela voltou a sorrir, está até mesmo gostando da humanidade
Fiz-lhe um bem, então...de não alimentar seu desejo algoz de matar-me todas as vontades
O bem que me fiz meus olhos contam...
Um bem de liberdade!
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