segunda-feira, 21 de julho de 2014

O canteiro


Sinta o meu coração _ela disse

E a mão pulsou junto de seu peito intimidada

Quanta covardia!

A grande dúvida_ eu dizia.

Ir, vir, manter, repetir.

Ela chamou isso de apego ao tradicional, depois de fuga, depois de comodismo.

Desde o início tudo era um cair no abismo.

Quem notaria?! Não eu, habituado ao sofrimento de minha melancolia.

Ela dizia: acalma seu coração, está tudo bem, o mundo se ajeitara para ficarmos juntos.

Enquanto eu me desesperava com qualquer movimento de rotação da terra.

Se o sol se escondia não podia vê-la, se nascia, não poderia escondê-la.

As paixões escancaradas morrem abafadas, sufocadas por um travesseiro de penas, duras

Ela disse que iria comigo para outro país, outro estado, outra cidade.

Depois disse que não sairia do lugar enquanto não encontrasse serenidade.

Depois não disse mais nada

Depois desapareceu.

Depois.

Nada.

Como a morte.

E não tinha terra para enterrá-la.

Eu só tinha sonhos, só voava...

Enquanto na minha mão seu coração parava, eu tentava reanimar sem sucesso qualquer afeto.

Ela se defendia, com rudes palavras, com frases prontas compradas numa loja de congelados.

E disse que eu não amava, que estava enganado, que estar ao meu lado era pesado....

Senti-me um fardo.

Mas não farto.

Fui até o fim.

Implorei que ressuscitasse, pedi perdão, xinguei, recontei-lhe os nossos passos

Ela me ignorou

Até eu teria me ignorado.

Disse estar tudo mais que acabado.

Me despedi, despedaçado, não antes de maldizer-lhe com des-descaso.

Abri no chão em que caí, um pequeno buraco.

Lá escondi a memória, o não vivido, o abafado.
Um dia, uma flor, quem sabe,  renasça

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